Uma inovação brasileira está transformando a aquicultura no Rio Grande do Norte ao tornar a genética do cultivo de camarões mais acessível e lucrativa. Com o suporte de tecnologia local, produtores familiares aumentam a produtividade de forma sustentável, gerando resultados concretos e fortalecendo a economia regional. Descubra como três empreendedores estão moldando o futuro dessa prática milenar com soluções que beneficiam tanto o produtor quanto o meio ambiente.
Uma revolução silenciosa está transformando a aquicultura no Rio Grande do Norte. Três empreendedores potiguares desenvolveram uma tecnologia 100% nacional que promete revolucionar o cultivo de camarões, tornando a genética aplicada mais acessível e aumentando significativamente a produtividade dos produtores locais.
O setor de camarão representa uma das principais forças econômicas do estado potiguar, respondendo por 80% da produção nacional de camarão em viveiros familiares e movimentando aproximadamente R$ 450 milhões anuais. Esta importância econômica torna ainda mais relevante qualquer inovação que possa potencializar os resultados dos produtores da região.
Uma Solução Genuinamente Brasileira
Roseli Pimentel, Luciana Menollilanza e Daniel Lanza identificaram uma lacuna significativa no mercado brasileiro: os testes genéticos para identificação das melhores famílias de camarões eram realizados exclusivamente no exterior, com custos elevados que inviabilizavam o acesso para muitos produtores locais.
Roseli, que coordenou o programa de melhoramento genético da maior produtora de camarão do Brasil, uniu forças com Daniel, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Luciana para criar uma solução inteiramente nacional. O investimento inicial de R$ 700 mil evoluiu para um aporte total de R$ 2 milhões, com apoio da empresa onde trabalhavam e recursos públicos.
Hoje, o laboratório criado pelo trio atende não apenas produtores brasileiros, mas também clientes no México e na Arábia Saudita, alcançando um faturamento anual de R$ 390 mil. A tecnologia permite identificar as famílias de camarões mais adequadas para cultivo, selecionando animais mais resistentes e produtivos.
Resultados Concretos no Campo
O impacto da tecnologia pode ser observado diretamente na propriedade de Hailton Alves Marinho, um dos 28 produtores familiares que cultivam camarões na região de Tibau do Sul. Às margens da Lagoa de Guaraíras, Hailton experiencia os benefícios práticos da inovação desenvolvida pelos empreendedores potiguares.
Com a nova tecnologia, Hailton produz 3 mil quilos de camarão por mês, mantendo custos operacionais de R$ 30 mil e obtendo lucro líquido de R$ 6 mil mensais. O diferencial está na qualidade superior dos camarões cultivados, que são maiores e mais saudáveis, agregando maior valor no mercado.
“Hoje eu produzo menos e ganho mais. O camarão maior tem mais valor no mercado”, explica o produtor, que também investe em sustentabilidade através do uso de energia solar e controle rigoroso da qualidade da água em seus viveiros.
Transformação Econômica Sustentável
A comparação entre os métodos tradicionais e a nova abordagem tecnológica revela números impressionantes. Segundo dados da Embrapa, o melhoramento genético do camarão marinho (Litopenaeus vannamei) busca obter linhagens mais produtivas e resistentes a doenças, combinando o melhoramento genético com outras tecnologias como monitoramento sanitário e uso de probióticos.
As melhorias genéticas representam uma estratégia fundamental para aliviar pressões econômicas sobre o setor. Conforme destacado por especialistas do setor, o investimento em melhorias genéticas ajuda as empresas de cultivo a aumentar o peso dos camarões e o número de ciclos de engorda por ano, maximizando a rentabilidade.
A tecnologia desenvolvida no Rio Grande do Norte exemplifica essa tendência, oferecendo aos produtores locais acesso a ferramentas antes disponíveis apenas no exterior, democratizando o conhecimento científico e tornando-o aplicável à realidade dos pequenos produtores brasileiros.
Visão de Futuro para a Aquicultura
A sustentabilidade permeia toda a abordagem dos empreendedores potiguares. Além do melhoramento genético, a tecnologia incorpora práticas sustentáveis que incluem o uso de energias renováveis e controle rigoroso da qualidade ambiental.
Daniel Lanza, professor da UFRN, vislumbra um futuro promissor para o setor: “O futuro da aquicultura está na informação. É assim que vamos melhorar a produtividade e a vida de quem vive do campo.” Esta visão alinha-se com tendências globais que apontam para a necessidade de soluções baseadas em dados e conhecimento científico.
Roseli Pimentel complementa essa perspectiva, enfatizando que “a tecnologia só agrega. Ela direciona o conhecimento para decisões mais assertivas.” Esta abordagem reflete a importância crescente de ferramentas como o SysCam, software que permite análise de dados genéticos, de sanidade e de cultivo, auxiliando na seleção de linhagens mais resistentes e produtivas.
A inovação desenvolvida no Rio Grande do Norte representa mais do que uma simples melhoria técnica. Ela simboliza a capacidade brasileira de desenvolver soluções próprias para desafios específicos, criando valor econômico, promovendo sustentabilidade e fortalecendo a posição do país no mercado internacional de aquicultura.
A experiência de produtores como Hailton demonstra que a combinação entre tradição familiar e inovação tecnológica pode gerar resultados excepcionais. À medida que mais produtores adotam essas tecnologias, o Rio Grande do Norte consolida sua posição como referência nacional na produção de camarões, abrindo caminho para um futuro mais próspero e sustentável no setor aquícola brasileiro.
Referências
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/858550/1/Melhoramentogenetico.pdf