A migração de brasileiros para Londres revela um panorama desafiador, onde profissionais qualificados enfrentam a dura realidade de subemprego. Embora a busca por melhores oportunidades e qualidade de vida seja um objetivo comum, muitos se veem obrigados a aceitar cargos que não refletem suas competências devido a barreiras linguísticas e burocráticas. Este artigo explora as histórias de Lívia, Wagner e Fabiana, que representam a luta diária de talentos brasileiros em um sistema migratório que frequentemente sacrifica suas qualificações.
A migração de brasileiros para Londres tem se intensificado nos últimos anos, impulsionada pela busca de melhores oportunidades profissionais e qualidade de vida. No entanto, um fenômeno preocupante tem chamado a atenção: profissionais altamente qualificados estão sendo forçados a trabalhar em funções muito abaixo de sua formação, especialmente no setor de limpeza. Este cenário revela as complexidades do processo migratório contemporâneo e os desafios enfrentados por quem busca reconstruir a vida no exterior.
A realidade de muitos brasileiros que chegam ao Reino Unido com diploma universitário é bem diferente do que imaginavam. Lívia, engenheira civil de 28 anos formada pela Universidade Federal da Paraíba, deixou João Pessoa há um ano acreditando que Londres seria o ponto de virada de sua vida. Hoje, trabalha como faxineira, recebendo 12,20 libras por hora em trabalhos de limpeza de escolas e casas.
“Nunca tinha feito nada manual antes. Foi difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero estabilidade”, relata Lívia. Sua jornada ilustra perfeitamente os obstáculos enfrentados por profissionais qualificados que chegam ao país com visto de turista e acabam trabalhando de forma irregular.
Wagner, oceanógrafo de 28 anos que saiu de Porto Alegre há três anos, compartilha experiências similares. Atualmente trabalha em um hotel londrino através de uma agência, recebendo cerca de 2 mil libras por mês. Apesar do salário parecer atrativo pelos padrões brasileiros, ele considera baixo para as exigências do trabalho.
“É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina intensa, escala 6×1 e cansaço constante”, descreve Wagner. Antes do emprego atual, ele trabalhava como cleaner independente, recebendo entre 10 e 13 libras por hora – valor suficiente apenas para cobrir necessidades básicas.
A trajetória de Fabiana, goiana de 24 anos que chegou a Londres em 2020 durante a pandemia, representa outro perfil comum entre os imigrantes brasileiros. Sem diploma universitário, ela trabalha como empregada doméstica em uma casa de família, exercendo múltiplas funções por 11 libras por hora.
“Faço tudo: limpeza, comida, passo roupa, cuido do cachorro. Sou quase uma governanta”, brinca Fabiana, que trabalha de segunda a sexta, das 8h30 às 19h. Apesar do rendimento mensal de aproximadamente 2,2 mil libras, o alto custo de vida londrino consome mais da metade de seus ganhos.
A validação de diplomas brasileiros no Reino Unido representa um dos principais obstáculos para profissionais qualificados. O processo é descrito pelos entrevistados como “caro e demorado”, forçando muitos a buscar alternativas de trabalho informal para se sustentar enquanto aguardam a regularização.
O Brexit e a pandemia de COVID-19 agravaram significativamente essa situação. Segundo Tânia Tonhati, professora da Universidade de Brasília, “depois do Brexit e da pandemia, o processo migratório ficou mais restrito e caro. Muitos brasileiros que antes circulavam com passaporte europeu perderam essa facilidade, tornando o recomeço mais precário”.
A pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, desenvolveu o conceito de “paradoxo da sobrequalificação migrante” para explicar esse fenômeno. Em sua tese “Navigating Precarity: The Lives of London’s Migrant Cleaners”, Marcel demonstra que mesmo imigrantes com diplomas universitários enfrentam os mesmos baixos salários, longas jornadas e insegurança que os demais trabalhadores do setor.
“As qualificações obtidas em outros países muitas vezes não são reconhecidas e o status migratório limita as possibilidades de emprego. A barreira linguística agrava a situação”, explica Marcel. Este “rebaixamento” profissional não reflete falta de mérito individual, mas sim estruturas que desvalorizam o trabalho migrante.
O setor de limpeza no Reino Unido, apesar das condições precárias enfrentadas pelos trabalhadores, possui grande importância econômica. Segundo o British Cleaning Council, o mercado de limpeza, higiene e resíduos atingiu 66,9 bilhões de libras em 2022, empregando 1,49 milhão de pessoas – cerca de 5% da força de trabalho britânica.
Em Londres, 60% dos trabalhadores da limpeza nasceram fora do Reino Unido, evidenciando a dependência do setor em relação aos imigrantes. No entanto, Marcel aponta que o crescimento se baseia na precarização e terceirização extrema, deixando os direitos dos trabalhadores vulneráveis.
“Muitos cleaners recebem em dinheiro, sem contrato formal, e podem ser dispensados sem aviso prévio, o que os torna vulneráveis ao roubo de salários e à exploração”, destaca a pesquisadora.
A condição irregular gera um estado constante de medo e vigilância entre os trabalhadores. Fabiana relata: “Vivo com medo, em uma ansiedade constante, em um estado de vigilância permanente. A imigração já bateu na minha porta quando eu não estava. Já fui parada pela polícia e precisei fugir”.
Este medo afeta diretamente as condições de trabalho. “Por isso, muita gente – inclusive eu – evita reclamar de salário, horário, qualquer coisa. A gente engole muita coisa porque tem medo de alguém te denunciar”, explica Fabiana.
Wagner também compartilha essa ansiedade: “Vivo em alerta o tempo todo, com dinheiro de emergência na conta e um contato para arrumar minhas malas caso eu seja deportado”.
O governo britânico tem intensificado as medidas de combate ao trabalho irregular. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Home Office realizou 10.031 operações de fiscalização, aumento de 48% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram registradas 7.130 prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, crescimento de 51%.
Londres concentrou 1.786 prisões, seguida por País de Gales e Oeste da Inglaterra com 1.196 ocorrências. O governo também aplicou 2.105 multas a empregadores, com punições chegando a 60 mil libras por trabalhador irregular.
Paralelamente, dados oficiais mostram que 4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao país no período de um ano – aumento de 49% em relação a 2024. O programa de retorno voluntário oferece até 3 mil libras para pessoas em situação irregular que aceitem deixar o Reino Unido. Os brasileiros representaram 18% dos 26.761 retornos voluntários realizados.
A realidade dos brasileiros em Londres expõe as contradições de um sistema migratório que, por um lado, depende da mão de obra qualificada estrangeira, mas por outro, cria barreiras que impedem o aproveitamento adequado dessas competências. O resultado é um desperdício de talentos que afeta não apenas os indivíduos, mas toda a economia.
Esta situação demanda reflexão sobre políticas migratórias mais inclusivas e processos de validação de diplomas mais eficientes. Enquanto isso não acontece, milhares de profissionais qualificados continuam subempregados, vivendo na informalidade e sob constante tensão, em busca de uma oportunidade de exercer suas verdadeiras competências.