A escala 6×1 tem gerado intensos debates devido ao seu impacto na qualidade de vida dos trabalhadores e nas finanças das empresas. Este modelo apresenta riscos trabalhistas significativos, além de afetar a saúde e a produtividade dos funcionários. Neste contexto, repensar a gestão de escalas é vital para garantir um ambiente de trabalho sustentável e eficiente.

A escala 6×1 tem se tornado um dos temas mais debatidos no cenário trabalhista brasileiro, especialmente após ganhar destaque nas discussões sobre qualidade de vida e sustentabilidade empresarial. Este modelo de jornada, que prevê seis dias de trabalho seguidos de um dia de folga, está no centro de uma complexa equação que envolve operacionalidade, custos e bem-estar dos trabalhadores.

O que é a Escala 6×1?

A escala 6×1 é um regime de trabalho amplamente adotado em setores operacionais, de serviços e varejo, onde os funcionários trabalham seis dias consecutivos e folgam apenas um dia. Este modelo surgiu como resposta à necessidade de cobertura operacional contínua, especialmente em atividades que demandam funcionamento ininterrupto ou com horários estendidos.

Setores como supermercados, shopping centers, indústrias de processo contínuo e serviços essenciais tradicionalmente utilizam esta escala para garantir a continuidade de suas operações. A previsibilidade na programação de turnos e a aparente economia na contratação de pessoal tornaram este modelo atrativo para muitas empresas.

Riscos Trabalhistas Associados à Escala 6×1

Um levantamento recente da VR, baseado em dados de quase 33 mil empresas usuárias de seus sistemas de RH Digital, revela números alarmantes sobre o excesso de jornada. Até outubro de 2025, essas empresas acumularam cerca de 136 milhões de horas extras, geradas por mais de 1 milhão de trabalhadores formais.

A radiografia do excesso é preocupante: 29% dos casos se concentram no excesso moderado (44 a 54 horas semanais), 41,9% no excesso significativo (54 a 64 horas) e 19,6% ultrapassam a marca crítica de 64 horas semanais. Estes números representam não apenas uma violação dos limites seguros estabelecidos pela legislação, mas também um passivo jurídico significativo para as empresas.

Do ponto de vista legal, jornadas excessivas reiteradas fragilizam a defesa das empresas em disputas trabalhistas, sobretudo quando associadas a adoecimentos físicos e mentais. O risco é cumulativo e tende a se materializar em ações judiciais e custos indiretos crescentes.

Impactos na Saúde dos Trabalhadores

A fadiga e o estresse decorrentes de jornadas extensas têm efeitos diretos na saúde física e mental dos trabalhadores. O excesso de trabalho compromete a capacidade cognitiva, aumenta a incidência de erros operacionais e eleva significativamente os riscos de acidentes de trabalho.

Estudos demonstram que a exaustão não apenas afeta o bem-estar individual, mas também compromete a experiência do cliente e a qualidade dos serviços prestados. O cansaço acumulado reduz a atenção, prejudica a tomada de decisões e impacta negativamente o relacionamento interpessoal no ambiente de trabalho.

A relação entre fadiga, estresse e produtividade é inversamente proporcional: quanto maior a exaustão, menor a capacidade de entrega de resultados consistentes e de qualidade.

Custos Ocultos para as Empresas

Embora a escala 6×1 possa parecer economicamente vantajosa no curto prazo, os custos ocultos da exaustão raramente aparecem nas planilhas imediatas, mas se revelam com força nos balanços de médio e longo prazo. O absenteísmo elevado, a alta rotatividade e as horas extras recorrentes formam um tripé que pressiona significativamente as margens empresariais.

A FecomercioSP projeta que o fim da escala 6×1 poderia resultar em um aumento de 37,5% no custo da hora trabalhada, considerando a redução da jornada para 32-36 horas semanais. Este cenário geraria passivos como horas extras adicionais e possíveis demissões em massa, além de retração nas contratações e queda na produtividade.

Os custos indiretos incluem ainda a necessidade de reposição constante de funcionários, treinamento de novos colaboradores e perda de conhecimento institucional decorrente da alta rotatividade.

Mudanças na Legislação e Responsabilidades das Empresas

A atualização da NR-1, com vigência a partir de maio de 2026, amplia significativamente a responsabilidade das empresas sobre riscos físicos, ergonômicos e psicossociais. Na prática, jornadas extensas deixam de ser apenas um tema de controle de ponto para se tornarem um indicador formal de risco ocupacional.

Esta mudança regulatória traz implicações diretas sobre governança, compliance e sustentabilidade do negócio. As empresas precisam desenvolver controles mais robustos para mitigar riscos psicossociais e ergonômicos, transformando a gestão de escalas em uma questão estratégica de compliance.

O desalinhamento com a NR-1 e a Gestão de Riscos Ocupacionais (GRO) pode resultar em penalidades significativas e exposição reputacional para as organizações.

Prós e Contras da Escala 6×1

Entre as vantagens tradicionalmente associadas à escala 6×1 estão a continuidade operacional, que garante cobertura permanente em operações essenciais, e a previsibilidade de escala, facilitando o planejamento de turnos e custos. A rapidez na alocação de mão de obra e a aparente eficiência financeira no curto prazo também são fatores considerados positivos.

Contudo, as desvantagens são substanciais e crescentes. O aumento do risco trabalhista, os impactos negativos na saúde física e mental, a queda de produtividade no médio prazo e a elevação de custos ocultos representam desafios significativos. Além disso, o desalinhamento com as novas exigências regulamentares da NR-1 torna este modelo cada vez mais arriscado.

Setores como supermercados enfrentariam aumento de custos operacionais que seriam repassados aos preços, sem necessariamente gerar ganhos reais de bem-estar para os trabalhadores.

Alternativas e Soluções para a Gestão de Escalas

A transformação da gestão de escalas exige uma abordagem inteligente baseada em dados. O levantamento da VR sugere que o desafio não está apenas no modelo de escala, mas na ausência de inteligência de gestão sobre ele. Sistemas existem, dados são registrados, mas falta transformar informação em decisão estratégica.

As soluções passam por revisar o dimensionamento de equipes, redesenhar jornadas de trabalho, investir em automação e reconhecer que a saúde do trabalhador não é um tema acessório, mas uma variável estratégica fundamental. A aceleração da automatização pode ser uma resposta natural das empresas para reduzir a dependência de jornadas extensas.

Uma transição gradual, combinada com redução de impostos sobre a folha de pagamento, pode facilitar a adaptação das empresas a modelos mais sustentáveis de gestão de pessoas.

Reflexões Finais sobre Sustentabilidade e Maturidade Empresarial

À medida que a regulação avança e a sociedade se torna menos tolerante a práticas que naturalizam o excesso de trabalho, a escala 6×1 deixa de ser apenas uma escolha operacional para se tornar um teste de maturidade empresarial. O que está em jogo transcende o cumprimento da lei: trata-se da capacidade das organizações de sustentar crescimento sem corroer sua principal engrenagem – as pessoas.

O debate sobre a escala 6×1 expõe um paradoxo fundamental. Criada como resposta à necessidade de cobertura operacional e previsibilidade de custos, quando mal gerida, produz o efeito inverso: eleva o absenteísmo, compromete a capacidade cognitiva e, frequentemente, prejudica a experiência do cliente.

A questão central não é apenas sobre horas de trabalho, mas sobre a capacidade de as empresas equilibrarem eficiência operacional com sustentabilidade humana, reconhecendo que o bem-estar dos trabalhadores é um investimento estratégico, não um custo operacional.

Referências

  1. https://www.fecomercio.com.br/noticia/com-o-fim-da-escala-6×1-custo-da-hora-do-trabalho-subiria-37-5-para-fecomerciosp-efeitos-seriam-devastadores-para-a-economia?%2Fnoticia%2Fcom-o-fim-da-escala-6×1-custo-da-hora-do-trabalho-subiria-37-5-para-fecomerciosp-efeitos-seriam-devastadores-para-a-economia=

  2. https://forbes.com.br/forbes-money/2024/11/quais-os-riscos-do-fim-da-jornada-6×1/

  3. https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/12/13/fim-da-escala-6×1-o-que-acontece-agora.ghtml